Capturando Almas

Uma coisa que me intriga é a relação do ser humano com a câmera.

Minha curiosidade sobre esse fenômeno piorou quando fiz um curso de documentário. Lembro do professor ter comentado sobre o impacto de câmeras e gravadores de som leves e portáteis no registro da vida cotidiana.

Ele estava falando de um gênero de documentário chamado CINEMA DIRETO que, muito resumidamente, procura observar e capturar a realidade como ela é, sem muita interferência do cineasta.

Antes desses avanços tecnológicos dos equipamentos de captação, as pessoas não estavam acostumadas a ter suas vidas registradas de forma tão direta, como personagens reais de uma história sem roteiro. E, por isso, elas não tinham muita noção do alcance da palavra EXPOSIÇÃO.

Já hoje, depois de muitos reality shows, pegadinhas, vídeo cassetadas e Michael Moores, todos nós sabemos muito bem que essa caixa preta pode realmente capturar nossas almas e nos levar ao céu ou ao inferno em menos de 15 minutos.

O CINEMA DIRETO sempre foi meu estilo de documentário favorito, até a chegada de SANTIAGO, do João Moreira Salles, na minha vida. É um filme com duas histórias que nascem em momentos diferentes: A filmagem registrou a exposição de Santiago e a edição, a de João. Ambas com igual constrangimento, na minha opinião. Talvez CONSTRANGIMENTO não seja a melhor palavra. VERDADE expressa melhor o que eu senti.

Em 2011, fiz uma viagem de meia volta ao mundo com meu irmão num pequeno avião que nos fazia parar a cada três horas. Fui registrando rapidamente todos os lugares por onde passávamos até o destino final, a Índia.

Algumas vezes, além dos espaços, apontei a câmera para as pessoas que, surpresas, respondiam com a mesma expressão de DESCONFIANÇA, TIMIDEZ e CONSTRANGIMENTO. Eu também sentia um certo desconforto, como se estivesse roubando um momento de suas vidas sem pedir licença.

Depois de doze dias, chegamos em Nova Deli e ganhamos um dia de folga para passear pela cidade. Foi então que algo muito esquisito aconteceu. Primeiro, notei que as pessoas pareciam ter mais curiosidade pela gente do que o contrário. Elas não se sentiam constrangidas em nos olhar fixamente.

Visitamos muitos pontos turístico e, em um desses lugares, vi uma criança linda olhando diretamente para a câmera e não resisti. Assim, passei a retribuir o “olhar”.

Pois bem, essas pessoas também tinham câmeras, muitas câmeras. E, de repente, em meio a grandes monumentos sagrados, passamos a capturar as imagens uns dos outros com um despojamento de quem faz uma SELFIE. Nem nos preocupávamos mais em aparecer diante de um fundo bonito, em mostrar a paisagem visitada. O foco era outro.

Quando me dei conta, uma mulher me deu seu bebê para segurar no colo enquanto seu marido sacava a máquina. A próxima da fila era a avó da criança. Fiquei imaginando uma foto minha numa cômoda junto com outros retratos da família. Foi estranho. O jogo tinha se invertido. E eu saí de fininho. De repente, a minha relação com a caixa preta mudou, como se eu tivesse visto um trem em movimento numa tela de cinema pela primeira vez e pensasse: “Se eu não sair correndo, ele vai me pegar”.

Seguem aqui as almas capturadas desse dia incrível em que me transformei em João.

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Este pequeno espaço que nos separa.

Uma vez, estava com um amigo em Arraial do Cabo, Rio de Janeiro, e precisávamos pedir uma informação sobre um ônibus ou barco, não lembro bem.  Uma criança caiçara passou e eu pedi a informação. Depois, fiz um comentário sobre o clima e uma brincadeira qualquer. A criança respondeu e demoramos um tempo alí, naquela conversa despretensiosa.

Quando, finalmente, seguimos caminho voltando para o nosso objetivo, meu amigo perguntou por que eu tinha feito aquilo, aquela interação sem propósito com um desconhecido. Não sei se por ser filha de uma carioca ou por trabalhar com documentário ou talvez pela curiosidade sem limites, achei aquela pergunta muito estranha. Ora, uma conversa existe sem objetivo. É da sua natureza, não? Mas fui me dando conta que a maioria das pessoas ignora isso que, para mim, é um fato.

Sou responsável por um talkshow, A Máquina, do Carpinejar. Não é um speakshow, nem um questionshow. Ou seja, o formato do programa é o da conversa. Como ocorre aqui com Fernando Anitelli. Pode parecer algo simples, mas não é. 

Vejo muitos talkshows agregarem ao formato elementos dinâmicos como música e humor, mas não há nada que hipnotize mais o espectador do que uma conversa que toma caminhos inesperados e instiga a curiosidade.

É preciso ter paciência e interesse para deixar que ela aconteça. E muitos de nós não permite mais essa perda de tempo. Somos objetivos e reprimimos a maioria das conversas que passam pelo nosso cotidiano. Acabamos nos libertando no twitter, no facebook, opinando sobre a vida de pessoas que nunca vimos. A conversa, de verdade, na vida, acontece menos do que deveria.

Existe um outro termo no inglês que vale a pena citar, o small talk, que vou chamar aqui de papo furado. E que define muito bem aquele meu momento em Arraial do Cabo. Um amontoado de palavras agrupadas sem sentido prático ou objetivo mas que, mesmo assim, serve para um monte de coisas.

Em um documentário, essa é a minha maior ferramenta de trabalho e serve, principalmente, para distrair o entrevistado de uma equipe de dez pessoas com uma boa quantidade de equipamentos apontados para ele.

E esse papo furado tem que seguir durante e depois da entrevista para que a pessoa tenha a certeza de que estou interessada nela e esse interesse vai muito além das palavras. Ele também está no silêncio, na respiração, no olhar ou na expressão que podem dizer um tanto mais do que eu tinha como objetivo. Está alí o espaço da surpresa, das entrelinhas, que revelam a verdade.

Fabrício Carpinejar, de alguma forma muito própria, tem essa habilidade. Ele gosta de uma boa conversa, sempre e sobre qualquer coisa. Ele busca sentido em detalhes pequenos e desapercebidos que dizem tanto sobre nós, seres humanos.

Minha maior alegria n’A Máquina é quando, num período de tempo tão curto, conseguimos revelar PESSOAS por detrás de tantas outras coisas que nos separam desse contato primário e instintivo e que, no fundo, nos torna comuns e reais.

Toda a vez que isso ocorre, para mim, é como a sensação de acabar de ler um livro, só que usando como veículo a televisão.