Este pequeno espaço que nos separa.

Uma vez, estava com um amigo em Arraial do Cabo, Rio de Janeiro, e precisávamos pedir uma informação sobre um ônibus ou barco, não lembro bem.  Uma criança caiçara passou e eu pedi a informação. Depois, fiz um comentário sobre o clima e uma brincadeira qualquer. A criança respondeu e demoramos um tempo alí, naquela conversa despretensiosa.

Quando, finalmente, seguimos caminho voltando para o nosso objetivo, meu amigo perguntou por que eu tinha feito aquilo, aquela interação sem propósito com um desconhecido. Não sei se por ser filha de uma carioca ou por trabalhar com documentário ou talvez pela curiosidade sem limites, achei aquela pergunta muito estranha. Ora, uma conversa existe sem objetivo. É da sua natureza, não? Mas fui me dando conta que a maioria das pessoas ignora isso que, para mim, é um fato.

Sou responsável por um talkshow, A Máquina, do Carpinejar. Não é um speakshow, nem um questionshow. Ou seja, o formato do programa é o da conversa. Como ocorre aqui com Fernando Anitelli. Pode parecer algo simples, mas não é. 

Vejo muitos talkshows agregarem ao formato elementos dinâmicos como música e humor, mas não há nada que hipnotize mais o espectador do que uma conversa que toma caminhos inesperados e instiga a curiosidade.

É preciso ter paciência e interesse para deixar que ela aconteça. E muitos de nós não permite mais essa perda de tempo. Somos objetivos e reprimimos a maioria das conversas que passam pelo nosso cotidiano. Acabamos nos libertando no twitter, no facebook, opinando sobre a vida de pessoas que nunca vimos. A conversa, de verdade, na vida, acontece menos do que deveria.

Existe um outro termo no inglês que vale a pena citar, o small talk, que vou chamar aqui de papo furado. E que define muito bem aquele meu momento em Arraial do Cabo. Um amontoado de palavras agrupadas sem sentido prático ou objetivo mas que, mesmo assim, serve para um monte de coisas.

Em um documentário, essa é a minha maior ferramenta de trabalho e serve, principalmente, para distrair o entrevistado de uma equipe de dez pessoas com uma boa quantidade de equipamentos apontados para ele.

E esse papo furado tem que seguir durante e depois da entrevista para que a pessoa tenha a certeza de que estou interessada nela e esse interesse vai muito além das palavras. Ele também está no silêncio, na respiração, no olhar ou na expressão que podem dizer um tanto mais do que eu tinha como objetivo. Está alí o espaço da surpresa, das entrelinhas, que revelam a verdade.

Fabrício Carpinejar, de alguma forma muito própria, tem essa habilidade. Ele gosta de uma boa conversa, sempre e sobre qualquer coisa. Ele busca sentido em detalhes pequenos e desapercebidos que dizem tanto sobre nós, seres humanos.

Minha maior alegria n’A Máquina é quando, num período de tempo tão curto, conseguimos revelar PESSOAS por detrás de tantas outras coisas que nos separam desse contato primário e instintivo e que, no fundo, nos torna comuns e reais.

Toda a vez que isso ocorre, para mim, é como a sensação de acabar de ler um livro, só que usando como veículo a televisão.

 

Anúncios

Um comentário sobre “Este pequeno espaço que nos separa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s